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Alfabeto do Desejo

No início do século XX o mundo atravessava outra fase. A magia estava renascendo, e duas guerras irrompiam chacoalhando as estruturas do mundo e as pondo abaixo. Antes de muitas das políticas que ditam o funcionamento do mundo do Ocidente ao Oriente, os experimentadores da magia podiam explorar muitas outras formas e procedimentos mágicos. Um dos mais ousados foi Austin Osman Spare.

Imagem: Projection, Spare.

Impregnado com uma aura artística expressa desde os primeiros anos, Spare era um gênio criativo e vivia em uma torrente constante de insights. Isso se expressa tanto em sua arte quanto em sua obra mágica. Um de seus maiores legados foi a construção do conceito e aplicação do Alfabeto do Desejo. Munido de visão e conhecimentos filosóficos, ele compreendeu a ideia de que cada emoção existe com base em seu oposto. Como em uma moeda o cara não pode existir sem sua coroa, as emoções em si não existem sua correspondente oposta.

“Exceto pela curiosa condição da gargalhada, que é seu próprio oposto, as emoções seguem um padrão dual — amor e ódio, medo e desejo, e assim por diante. O Alfabeto do Desejo inclui todas as emoções básicas organizadas como dualismos complementares, em uma forma que lembra os deuses clássicos ou o Ruach da Kabbala.” — Liber Null, pág. 86, Peter Carrol, Editora Penumbra.

O primeiro, e talvez único, a destrinchar e compreender completamente o sistema de Spare foi o escritor, ex-secretário dele e de Aleister Crowley, Kenneth Grant, e mesmo por meio de sua tradução este conhecimento é difícil. Em toda a escrita de Spare impera uma dualidade proposital, e um estilo literário que confunde nas amálgamas, jogos poéticos e contradições intencionais. Seu estilo ambíguo tinha também uma função mágica. Enquanto as palavras evocassem um estado mental abstrato, elas tinham um poder de ativação muito maiores.

Imagem: correlação entre o alfabeto do desejo de Austin Spare e os símbolos alquímicos, apresentado por Peter Carroll em Liber Null e Psiconauta (versão em português pela Editora Penumbra).

Segundo o próprio Spare, os glifos do alfabeto juntos têm a função de expressar “aspectos da sexualidade”. Para ele, o Alfabeto do Desejo é parte de uma especial proto-linguagem do homem em sua própria inconsciência, e pode lhe dar grandes poderes e práticos resultados, particularmente se compreender as técnicas que envolvem a construção de rituais artificiais de linguagem. De nenhuma forma esse sistema deve servir de modelo universal, sendo tão somente um método para a construção de sua própria proto-linguagem, como ferramenta de autoconhecimento, desenvolvimento consciencial, exploração pessoal, e especialmente, aptidão para mais experiências de sigilização mágica.

Basicamente, pode-se descrever em duas abordagens o que significa e para que serve o alfabeto:

1. O Alfabeto do Desejo como estrutura que aloca, embute e organiza a Matrix da Realidade.

2. O Alfabeto do Desejo como espelho da consciência criada pelas correntes de associações.

Alfabeto do Desejo como Princípio Estrutural

Essa primeira hipótese é proposta por Peter Carroll no Liber Null, e diz respeito a compreender o alfabeto puramente como um diagrama de emoções, como princípios norteadores dos elementos de dualidade contidos na realidade. Ele aplica os termos LIBERTAÇÃO/DISSOLUÇÃO, DESTRUIÇÃO/LUXÚRIA, SUSTO/ATRAÇÃO, etc. Além dessa proposição inicial, ele ainda adiciona quatro categorias, que chama de “Alfabeto Suplementar em Malkuth”, ao qual descreve as emoções somáticas que compartimentalizam os 4 tipos de emoções padrão, dentro de suas determinadas dualidades. Algo como a divisão dos elementos dentre os 12 signos do Zodíaco, a dizer, DOR/PRAZER e DEPRESSÃO/ELAÇÃO. Existe ainda a interpenetração de outro conceito emocional que se difere dos outros por ser em si mesma sua dualidade, a gargalhada. Ele a considera “fora de competição”, pois se caracteriza de forma totalmente diferente das demais emoções. Para diferir as 4 manifestações da gargalhada, ele exemplifica seus efeitos em: GARGALHADA (zombaria), DESCONCEITUALIZAÇÃO (quebra de expectativa que gera o riso), CONCEITUALIZAÇÃO (o riso de eureca) e UNIÃO (gargalhada extática, divina).

Essa abordagem ilustra a ideia de uma estrutura emocional do Homem. Muitos outros sistemas foram incorporadores, e outros vieram a incorporá-lo, no desenvolvimento do ideal estrutural de funcionamento da consciência humana. Por exemplo, os 4 elementos da alquimia, Água, Fogo, Terra e Ar foram incorporados em larga escala, estratificando categorizações maiores, como as 10 sephiroths, os 22 caminhos da Árvore da Vida cabalística, as 12 energias e qualidades do Zodíaco, posteriormente os 8 circuitos de Timothy Leary e Robert Anton Wilson, etc. Desde o início dos tempos, e por milhares de anos, a humanidade tem tentando compreender a si mesma, e invariavelmente instrumentaliza a realidade em termos estruturais (“Deus criou o mundo com medição e número, com palavra e ordem”). Provavelmente não é fácil encontrar um único, nosso, verdadeiramente original esquema que ordene a realidade em termos universais. Mas ao mesmo tempo, tais sistemas fornecem-nos insights sobre a estrutura básica da psique humana, arquétipos paternais ou mesmo alguma ferramenta a se implementar na prática mágica.

Em outras palavras, não importa realmente se o padrão depende das estruturas de percepção influenciadas pela construção do cérebro e dos hormônios. O importante é o fato de que podemos encontrar alguns desses padrões de ordem em todos os seres humanos e, portanto, em cada psique. Compreendido o Alfabeto do Desejo como um significativo instrumento de aprofundamento da consciência, merece-se agora a proposição de criação de seu próprio. Seguindo os procedimentos de construção de seu alfabeto, o magista deverá escolher as figuras e elementos que queira incluir, e quais energias que personifiquem sua própria psique. É necessário encontrar a própria estrutura e modelo que o defina.

Para exemplificar, comecemos com os 4 elementos básicos, pela familiaridade com a qual a maioria dos magistas têm com seus símbolos. Essa estrutura serve para trabalhar os dualismos recorrentes na realidade perceptível. Usemos as emoções e a caracterizemos em suas qualidades de acordo com as dualidades dos elementos (podendo ser aplicados em muitos outros exemplos de acordo com as associações de cada pessoa):

Água: Amor, Pacificidade, Necessidade de Adaptação; Fogo: Ódio, Agresão, Vontade de Conquista.
Terra: Dor, Lutando por Estabilidade, Perseverança; Ar: Alegria, Impulso por Mudança, Flexibilidade.

A partir destes símbolos base, é possível criar um canon de símbolos para se usar depois. Uma possibilidade é desenvolver a partir do método de palavras. Escolhe-se uma palavra que evoque um sentimento, se sigiliza a partir do alfabeto comum, então, interpõe os símbolos base para formar novos sigilos. Como na imagem a seguir:

Sigilos baseados em palavras, extraídos do Practical Sigil Magic, de Frater .:.U.:.D.

Tais correlações são argumentáveis. Os sentimentos podem ter expressões dúbias ou complementares, ou mesmo intensificadas e eufemisadas. Dor associado a Terra pode ter relação com o tato, enquanto a dor proveniente da guerra possa vir do Fogo. Pode-se trabalhar igualmente com sub-elementos ou misturas entre eles, Terra da Água, Ar da Água, Fogo da Água, etc. Use sua intuição.

Trabalhar com o Alfabeto do Desejo traz um pensamento e percepção simbólicos. Isso tem uma especial importância na magia cerimonial. Como se sabe, uma cerimônia magística é operada com uma grande variedade de símbolos, glifos e imagens (pentagrama, hexagrama, armas elementais, mágicas, figuras de arcanjos, etc), embora em geral cada magista busque os símbolos que melhor conversem com ele. O pensamento lógico-simbólico tem importância em qualquer tipo de trabalho mágico, em qualquer sistema que se use. O trabalho com imagens incita conceitos intelectuais (se os glifos escolhidos encarnarem tais conceitos), que ativam em nossa inconsciência e o encontro com seu Eu Superior, ou persona de Mago.

Mas o real valor do Alfabeto do Desejo consiste nas duas diferentes qualidades de energia que existem quando estamos a utilizá-lo. Os dois aspectos sempre conseguem descreve a linguagem do ponto de vista do presente. Ao ativar o glifo que diz respeito ao amor, invariavelmente ativamos algum ponto do ódio dentro de nós, ódio pela indiferença, pela solidão, ou pelo medo da rejeição. Da mesma forma, o ódio sempre traz consigo o amor por algo com o qual se quer proteger, ao direcionar o ódio contra algum objeto. No fim, o alfabeto é uma tentativa de abordar elementos que são essencialmente inefáveis.

Para começar, é necessário ter em mente que sem a repetição de certas técnicas, raramente é possível acessar o inconsciente por sua vontade, como os efeitos do pensamento positivo, autossugestão, autohipnose e mantras. Pelo alfabeto do desejo, é possível utilizar a repetição, criando um arsenal reciclável de sigilos, que podem ser adicionados cumprindo um objetivo padrão dentro das operações. Spare, por exemplo, desenvolveu um sigilo de introdução de vontade, que pode ser combinado com outros glifos para gerar um sigilo:

“I Desire” (glifo de Spare para “Eu Desejo”)

Esse exemplo é suficiente para mostrar como sigilos são reutilizáveis. A ideia não é descrever toda a filosofia do sistema mágico de Spare, nem analisar os numerosos sigilos abstratos que ele desenvolveu, mas tão somente compreender as conexões que formam essa complexa estrutura (sigilos para despertar, por exemplo, o Ego Empírico ou Ser Possessivo).

Alfabeto do Desejo como Espelho da Psique

Diferente do método estrutural, que prevê um sistema concreto para a criação dos sigilos, este método busca usar a intuição, agindo organicamente. Não se procura sistematizar, busca-se na verdade a canalização da informação pela escrita automática, abrindo caminho direto entre a materialização artística e o anseio subconsciente. São feitos rabiscos, formas ininteligíveis, e procura-se um destaque em meio aos formatos. Algum desenho que faça sentido com o desejo, chamando a atenção, não por meio da racionalidade, mas da afinidade energética.

Uma das formas de se fazer isso, é escolhendo uma frase que exprima um desejo, por exemplo, EU DESEJO PASSAR NO CONCURSO. Pode-se separar as partes da frase em “EU DESEJO”, “PASSAR”, “CONCURSO”. Cada um desses blocos teria uma função em seu alfabeto pessoal, devido suas próprias associações. O eu pode ser suprimido para estar implícito em qualquer sigilo. A ideia é criar um símbolo que evoque aquele significado por si só. O “desejar” é o básico de toda operação mágica, “passar” pode ter a ver com um ímpeto de sucesso em tudo quanto for empreendido, e uma energia de impulsionamento para tal, “concurso” pode ser o desafio pessoal, as barreiras e obstáculos a serem superados.

A operação se dá da seguinte forma: o magista pega uma folha de papel, no topo da página escreve as iniciais de cada bloco de palavras a ser sigilizado. Feche os olhos e se concentre em cada um deles, evocando o estado de gnose que melhor lhe convir. Um mantra pode ser criado com essas iniciais servindo de âncora para o estado de “não-pensamento” necessário. Assim que o transe for percebido, coloca a caneta no papel e a deixe vagar sozinha, faça rabiscos, desenhos, contorne as paisagens de sua mente e deixe que a escrita automática tome conta de você. A caneta se moverá sozinha, assim que ela parar, você retorna do transe, e então destaca o símbolo que sua intuição lhe disser ser a expressão de seu bloco de palavra. Faça um para “DESEJO”, outro para “PASSAR” e mais um para “CONCURSO”.

Método de criação do Alfabeto do Desejo por escrita automática, de Frater U.D.:.

O exemplo pode parecer tosco, mas a tendência é que as primeiras tentativas sejam semelhantes a essa. A ideia é não desanimar, não deixar a mente consciente tomar controle e tentar quantas vezes forem necessários até sentir que encontrou o símbolo que melhor exprime a intenção sigilizada. Isso pode ser tentado com vários conjuntos de palavras de acordo com a frase do desejo, e com tentativas o suficiente, monta-se um sigilo pictório que seja o desejo completo. Tal símbolo pode se tornar um talismã ou um sigilo simples para ativação.

Exemplo de sigilo que pode se tornar talismã, pentáculo ou desejo comum a ser lançado, por Frater U.D.:.

A ideia é que cada glifo que forma o sigilo no centro do círculo, seja uma “letra” do seu alfabeto do desejo. Concentrada ali está toda a energia, intenção e magia que faz com o que o símbolo tenha um poder de exprimir a palavra que ele sigilizou, ao invés da palavra em si, que muitas vezes está viciada pela linguagem e limitada a um conceito racional, que ao fim, não evoque a completude da experiência de alguma emoção, ou como dizia Spare, “algum impulso sexual”.

Outra forma desse método, é gerar os sigilos de um desejo a partir das construções prévias de outros símbolos que já tenham sido trabalhados para evocar intenções. Por exemplo, você deseja um emprego mas não sabe exatamente qual é o melhor. Então cria a frase “EU DESEJO UM EMPREGO APROPRIADO”. Os glifos para desejo já foi criado. O “EU” já fora suprimido e o “UM” não é necessário, pois apenas serve de conectivo semântico. Como já havia um símbolo para “Desejo”, faltaria apenas os glifos para “EMPREGO” e “APROPRIADO”.

Montagem de sigilos (adaptado) como frases de sigilos, por Frater U.D.:.

Com o tempo você terá cada vez menos trabalho para construir seus próprios sigilos, devido o arsenal de glifos gerados à medida que for construindo seu alfabeto e codificando seus desejos. Essa é a maior vantagem, pois pela insistência, criar-se-á uma conexão intensa entre o consciente e o subconsciente, fazendo com o efeito dos sigilos e a assimilação se seus significados emocionais fiquem intrínsecos. Os resultados serão perceptíveis se o magista mantiver um diário fiel de anotações, e após dezenas ou centenas de operações, terá para si um completo Dicionário do Desejo! Isso economiza muita energia, e perceber-se-á após 3 ou 4 anos, o volume imenso de informação interna que disporá em seu arsenal mágico. O método do Espelho da Psique não tem o sentido de ordenamento e estrutura do anterior, mas serve muito bem como canal direto entre o inconsciente e a natureza de seus próprios anseios.

Você deve meditar frequentemente sobre as seguintes questões: quantos desses sigilos realmente correspondem ao que você quer da vida e da magia? (faça uma anotação e revisite os sigilos que você usa com mais frequência e os que mantém mais fortes na mente.) Você percebe algum desequilíbrio? Quais termos e ideias surgem com mais frequência na confecção de seus sigilos e frases? O que deve ser enfatizado, de acordo com seus princípios e sua vertente? Qual sua missão? Quais emoções devem ser evitadas e por quê? Ademais, você mata dois coelhos com uma cajadada só, combinando prática empírico-pragmática junto a sua ética individual.

O Alfabeto do Desejo está na vanguarda quando se trata de ferramentas que possam prover reais resultados mágicos, de autoconhecimento, conhecimento crescente e auto-análise. Nada se comparada a sua variedade de aplicação e sua riqueza de utilidades, mas também para trabalhar o aspecto mais interessante da prática de sigilos, o que Austin Osman Spare chamou de Atavismo Nostálgico ou Nostalgia Atávica.

Atavismo Nostálgico

O termo atavismo nostálgico é outro nome para definir um importante princípio do sistema de Spare, que algumas vezes ele definiu como “ressurgência atávica”. A prática se fundamenta na Teoria da Evolução de Darwin. Deve ser familiar para a maioria dos leitores o conhecimento de que descendemos de um ancestral comum. Das árvores, aos homens e ou organismos unicelulares, um dia carregamos uma mesma fita que DNA que se desdobrou infinitamente, atravessou cinco extinções em massa, e chegou até o ser que têm consciência e capacidade de criação, chamado ser humano.

Imagem: Spare, atavism.

Spare tentou voltar ao início, aos estágio pré-humano da consciência pela ativação da memória genética ou hereditária. Pra ele não um fim em si, mas uma premissa para o alcance dos mais incríveis e maravilhosos poderes mágicos, provavelmente a fonte da magia em si, escondidos sob mentiras e ilusões dos subterfúgios dos estágios de evolução. Essa proposta se confirma se analisando as práticas de xamãs siberianos ou sul-americanos ou vários dos fetiches dos sacerdotes africanos, que trabalham com o poder dos animais, totens, etc. Práticas que confirmam de novo e novo. Somente quando a mágica é orgânica, ou inconsciente e carnal, segundo ele, é que é mais efetiva. Estrando profundamente em nosso transe mágico, e retornando alguns estágios da consciência, é o jeito mais rápido de acessar seu poder mágico, e mais importante, de direcioná-lo e usá-lo.

“O conhecimento dos nossos antepassados foi comunicado a Odin, o deus-homem da Escandinávia, que recebeu as runas em seu ato de auto-sacrifício. Através deste ato ele adentrou na memória arcana dos deuses e dos homens e recuperou a sabedoria. Nossos familiares — sejam cães ou sapos, pássaros ou cobras, gatos ou porcos — são testemunhos vivos da nossa ancestralidade, nossa afinidade com a natureza, nosso sangue que flui e que se estende ao longo do tempo.” — Nicholaj de Mattos Frisvold, A Arte dos Indomados.

Por outro lado, não podemos ser negligentes, é importantíssimo afirmar que essa prática não é inconsequente, e muitas vezes têm resultados catastróficos. No mínimo, espera-se que uma operação de Atavismo Nostálgico mude absolutamente sua visão de mundo, e drasticamente suas ideias sobre moral e ética. Por exemplo, se buscar encontrar sua consciência animal (algo como seu “karma reptiliano”), é possível que passe a ser obsidiado com particulares pensamentos desagradáveis e um tanto quanto inconvenientes, principalmente sobre convenções da sociedade. Por outro aspecto, é inteiramente conhecida a ideia freudiana de que “quando o ID parte, a pessoa se torna o Self”, o que para o Dr. Carl G. Jung, é o conceito de sombra, e se eu individual interno, aquelas partes mais indesejadas de nosso ser. É uma fonte imensurável de poder magístico, e o operador deve ficar longe disso se não deseja mudar drasticamente aspectos de seu interior, passar por alguma viagem de extrema mudança, e impactar todo o seu mundo interno e externo.

Imagem: Spare, atavism.

Spare não deu diretivas acuradas de como executar com exatidão a operação de Atavismo Mágico, mas os desenhos que deixou e anotações de algumas práticas deixaram pistas valiosas das incríveis possibilidades disso.

Existem vários métodos para a aplicação do Atavismo Nostálgico. Por exemplo, é possível gerar sigilos que te deem a consciência de diferentes animais. Spare deu um termo para essa absorção consciencial, associando-o com o animal em questão, e chamou de “karma”, mas de uma forma diferente ao seu significado usual. Karma em sua terminologia pode querer dizer algo como “a soma de todas as suas experiências”. Podemos então considerar as seguintes sentenças de desejo:

Em relação à primeira frase, Peter Carroll em seu Liber Null e o Psiconauta, menciona incríveis resultados (pag. 225 na edição da Penumbra). É importante advertir que é melhor tentar testar as técnicas de atavismo em estados de sonho somente, ainda que se tenha alguma familiaridade com magia. Só então você deve experimentar atavismos na vida cotidiana, e claro, em rituais. Você poderia anexar a palavra “imediatamente” às frases acima e em seguida carregar pentáculos ou amuletos com a ajuda do Alfabeto do Desejo para uso em rituais para trabalhos especiais (por exemplo, como portais para estados alterados). Novamente, esse método exige muito experiência e treino.

Outro método consiste em frasear seus desejos menos especificamente, mas mais compreensivelmente. O método é entender a ideia abstrata da intenção, um procedimento que te leva a determinada experiência sem nenhuma alternativa. Alguns exemplos possíveis:

A palavra chave “encarnação réptil” nos mostra como estamos próximos de outra técnica de regressão — a terapia de reencarnação. Mas essas intenções servem para dar uma função prévia ao ritual ou operação mágica, ao carregar mais profundamente os sigilos com a energia desses atavismos. Por exemplo, um talismã carregado com sua “consciência reptiliana” tem um poder muito maior de carregamento do um estado normal de transe mágico. É claro que é importante reconhecer quando usar tais consciências, porque ninguém ia querer realizar um trabalho racional e intelectual sob uma consciência reptiliana. Temos que aprender a escolher a melhor aplicação para os especiais usos de consciências atávicas.

Imagem: Spare, atavism.

Trabalhar com animais tem longa tradição, principalmente entre os povos mais “primitivos”. Até mesmo entre “magistas urbanos”, como Franz Bardon, que recomenda este tipo de trabalho no quarto nível de seu “treinamento mental mágico”, no livro Iniciação ao Hermetismo. Sujja Su’a’No-ta também ensina na primeira parte de seu livro “Element-Magie”. Lembra também a atenção não-ordinária que bruxas receberam por tais práticas na época da Inquisição.

Normalmente se demoraria anos ou décadas para que as práticas com Atavismo Nostálgico viessem a ganhar extrema efetividade e bom controle por parte do magista, mas a maioria das questões que limitam a consciência e fortalecem o censor, está na base do que constrói a sociedade como “civilização”. E é por isso mesmo que isso é tão importante nessa época, para não se perder a capacidade humana em meio ao entulho mental imenso da cultura imposta, ou das convenções que só servem como mecanismo de controle e coerção. Devemos nos tornar lobos, leões, macacos, aves, peixes, sapos ou demônios, enfrentar o que é civilizado, se arriscar nas possibilidades, e destruir tudo de novo. E de novo. E de novo.

Por: Zero.

Referências:

Practical Sigil Magic — Frater U.D.:. O Livro do Prazer, a psicologia do êxtase — Austin Osman Spare.

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