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Magia & Ciência

A Epistemologia é a área que estuda filosoficamente o desenvolvimento da ciência, analisando os objetivos que são considerados primordiais para a evolução científica de cada época, seus fundamentos lógicos, suas interfaces humanitárias e sociais, bem como seus limites de entendimento. Em alguns estudos epistemológicos recentes, já se percebem as rupturas no pensamento científico que surgiram com o paradigma quântico e com as considerações relativísticas da primeira metade do século XX. Entende-se que estas descobertas recentes podem mudar a forma de ver o mundo, e mesmo a forma de se fazer ciência (LEWIS, 2016).

Segundo o paradigma quântico, o universo não seria determinístico, mas se resolveria somente no momento em que é observado, tomando configurações diferentes dependendo do observador. Já segundo a teoria da relatividade, o próprio tempo não seria percebido de forma fixa, dependendo também da velocidade à qual o observador está se movendo.

Esta questão de um universo mutável cuja manifestação depende fortemente do observador tem grande similaridade com as considerações do Caoísmo (enquanto paradigma filosófico) e da Magia do Caos (enquanto paradigma mágico). Ainda há um grande caminho a ser percorrido no sentido de se compreender cientificamente o que hoje se chama magia, mas percebe-se que a direção do desenvolvimento científico aponta para grandes convergências em um futuro próximo. Além disso, há outras ferramentas recentes desenvolvidas pela ciência que podem ser utilizadas para melhor avaliar a Magia. E é delas que vamos falar.

Imagem: arte do jogo Numenera.

Relatividade

A teoria da relatividade geral apresenta dois conceitos interessantes que vão de encontro ao que é postulado nas vertentes mágicas em geral. O primeiro diz respeito ao tempo, que é relativo e cuja percepção de passagem depende do observador. O segundo diz respeito à conversão entre matéria e energia e vice-versa. Estes dois conceitos são bastante importantes para aplicações nucleares como Usinas Termelétricas a Urânio e também bombas atômicas, e se apresentam indiretamente no funcionamento do Cosmos, sendo primordiais à sua manutenção.

Recentemente, avanços foram feitos no sentido de se obterem imagens medidas instrumentalmente de um buraco negro, e observou-se que as equações postuladas se confirmaram na prática, com grande aderência entre o comportamento previsto e o medido (EHT, 2019).

Imagem: (E) simulação de um buraco negro em 1979; (D) simulação e medições de um buraco negro em 2019.

No campo da magia, podem ser feitas analogias com a percepção de tempo alterada que é foco de algumas meditações e mesmo de alguns servidores de Magia do Caos (como Fotamecus, criado em 1996) e também com a capacidade de materialização apresentada por alguns médiuns. Porém, o estado da arte atual da teoria relativística leva a crer que a energia requerida para realizar estes feitos no plano físico (ou seja, materializar objetos a partir do nada e realmente fazer com que as células sintam alterações na passagem do tempo) seria proibitivamente alta. Para materializações, seria igual a E=mC^2, onde m é a massa do objeto, o que resulta em valores comparáveis aos de uma usina nuclear em operação. Sendo assim, estudos detalhados no campo físico parecem estar mais longe de poderem ser realizados com sucesso, enquanto o arcabouço teórico não tiver novas evoluções.

 

Quântica

Os princípios da Física Quântica e suas analogias com magia já foram abordados em texto anterior, e até tempos recentes persistia na prática uma dúvida importante e basal sobre a natureza da realidade. Parte dos cientistas acredita que o universo é determinístico, e somente pensamos que ele está em um estado sobreposto porque ainda não pudemos conferir qual o estado correto. O gato de Schröedinger só poderia estar vivo OU morto dentro da caixa, e se apresentaria no mesmo estado para QUALQUER observador que a abrisse. Outra parte dos cientistas considera que o gato estaria vivo E morto até que se abra a caixa, e o seu estado real somente seria resolvido ou “renderizado” quando a caixa fosse aberta, podendo se apresentar diferentemente para CADA observador que a abrisse. Para todos eles, porém, os efeitos quânticos só se tornariam significativos para partículas muito pequenas (como elétrons) ou vibrações muito altas (como energias sutis).

Imagem: fan-art do jogo Numenera.

Mais recentemente, um resultado interessante acerca deste princípio foi obtido, quando um experimento mostrou que duas realidades diferentes podem se apresentar a diferentes expectadores que observam o mesmo fenômeno de locais ou por perspectivas diferentes (PROIETTI et al, 2019). Um artigo científico publicado em 2019 concluiu, a partir do experimento citado, que o universo não é determinístico, mas sim probabilístico como previa a teoria quântica, e que a realidade só decai para um estado fixo no momento em que é observada ou medida.

Em uma possível aplicação no campo da Magia, pode-se entender que há uma confirmação do princípio Hermético da correspondência e do preceito base do Caoísmo: diferentes manifestações podem derivar do mesmo conteúdo arquetípico. O mesmo conteúdo “raios e trovões” pode se apresentar a nível mental como um estado de irritabilidade, a nível físico como uma luz que risca os céus, para algumas pessoas como Zeus, para outras como Iansã, e para outras como Baal. As probabilidades de manifestação de quaisquer resultados tênues, por sua vez (como por exemplo um lançamento de moeda) não estão resolvidas de forma fixa antes que ocorram, e também poderiam, nesta lógica, ser manipuladas a nível quântico.

 

Redes Neurais

Uma ferramenta interessante que está em linha com algumas abordagens de Magia do Caos — principalmente aquelas que focam em resultados e não tanto em mecanismos — são as Redes Neurais. Este conceito da teoria da computação foi desenvolvido em 1943 pelo neuroanatomista McCulloth e pelo matemático Pitts, e tem como foco a construção de uma malha de interações entre os elementos que funciona mimetizando um cérebro e seus neurônios (MCCULLOTH e PITTS, 1943).

Imagem: fan-art do jogo Numenera.

Como este modelo não tem foco nos mecanismos e sim nas interações e nos pesos estimados para cada influência no momento de tomar decisões, ele pode ser treinado para qualquer finalidade, por meio de tentativa e erro, bastando-se fornecer estudos de caso e mostrar ao algoritmo se as tentativas de resolução foram positivas ou negativas. Um exemplo de utilização recente são os softwares de reconhecimento de imagem: após serem treinados vendo o rosto de mutias pessoas, eles desenvolvem a capacidade de saber quando uma dada foto contém um rosto.

No campo da magia, esta ferramenta pode ser útil no aprimoramento de rituais usando as informações armazenadas em um grimório, acerca do que melhorou ou piorou os resultados da prática ao ser ou não feito. Uma ordem de importância pode ser construída para cada elemento do rito, e após vários testes pode-se chegar a uma versão otimizada da prática. Elementos podem ser acrescentados ou retirados, para que a eficiência do rito seja maior a cada etapa.

Já no campo do aprendizado de novas línguas, fomos presenteados pelo uso coerente de Redes Neurais no filme A Chegada, quando os pesquisadores conseguem decifrar a linguagem de alienígenas e seu sistema circular de escrita. Em seguida, no filme, os pesquisadores criam suas próprias frases na mesma língua usando um software avançado de computador. Esta abordagem linguística e sua reprodução usando Redes Neurais pode ser uma ferramenta interessante para a abordagem da comunicação com entidades (por exemplo, ampliando o conhecimento sobre a linguagem Enoquiana).

 

Big Data

Outra ferramenta atual que tem grande potencial de uso na magia é a de Big Data, uma abordagem que surgiu na bioestatística e desde então tem tido uso em estudos demográficos, cálculo de rotas em softwares de navegação, e análises de opinião pública (GE et al, 2018). A abordagem de Big Data tira o foco das medições individuais de um experimento, por entender que elas podem conter diferenças devido a vários fatores, e coloca em análise as grandes tendências e os indicadores do conjunto. A opinião de cada pessoa não é tão importante quanto a estatística geral de milhares de opiniões, que permite calcular mapas de polarização e entender os rumos da sociedade de forma mais robusta.

Imagem: fan-art do jogo Numenera.

No campo da magia, uma abordagem de Big Data pode permitir que um experimento mágico seja analisado frente a muitas repetições do mesmo, o que privilegiaria a probabilidade geral de funcionamento, ao invés do sucesso ou fracasso individual. De posse da coleta dos dados de um grande número de experimentos, pode-se realizar uma análise estatística para compreender as tendências naturais, e sua mudança pelo uso da magia. Se uma moeda for jogada 100 vezes para cima, tem grande probabilidade de cair 50 vezes em “cara”, mas em um experimento mágico onde se peça para que ela caia em “cara”, 54 vezes já pode ser um bom indicativo de que funcionou (bastando ser estatisticamente significativo sob teste de hipóteses).

 

Programação Neurolinguística

A Programação Neurolinguística (PNL) foi desenvolvida com esta denominação nos anos 70 por Brander e Grinder, que observaram as técnicas de acompanhamento psicológico de diversos terapeutas e modelaram a linguagem usada pelos mesmos, assim como os resultados sobre os pacientes (SBPNL, 2019). Com base na modelagem, desenvolveram técnicas para gerar efeitos conscientes e mesmo alterações inconscientes que apresentavam o potencial de alterar a relação das pessoas com o mundo, com base em linguagens verbal e corporal, escolha adequada de palavras e construções frasais.

As ferramentas da PNL podem ser utilizadas como auxílio na elaboração e na análise de rituais e cerimônias, e já vêm sendo abordadas nas técnicas chamadas de “Lei da Atração” para uma melhor ativação do cérebro com finalidades mágicas. Tomografias, por sua vez, podem vir a ser utilizadas em conjunto com estas técnicas para o mapeamento mais sistemáticos dos efeitos da PNL sobre o cérebro.

 

Tomografias

Em paralelo aos estudos linguísticos mais voltados para o acompanhamento psicanalítico, nos últimos anos começaram a surgir diversos estudos que usavam a técnica da tomografia computadorizada para avaliar o funcionamento cerebral em conexão com diferentes emoções (REIMAN, 1997) e mesmo alguns estados alterados de consciência (THIBAUT et al, 2014).

Imagem: fan-art do jogo Numenera.

Este é um campo promissor, e apresenta algumas perspectivas interessantes, como por exemplo o mapeamento de estados de gnose, do transe mediúnico em diferentes vertentes, e do funcionamento cerebral sob o efeito de energias, entidades e arquétipos diversos. Um estudo conjunto mais sistemático precisa ser realizado, e dada a variedade de condicionantes individuais envolvidos, pode ser vantajoso que seja realizado de forma probabilística com sobreposição e composição dos resultados em busca de um modelo geral.

 

Por: RoYaL.

Referências: LEWIS, P. J. (2016). Interpretations of Quantum Mechanics — IEP — Internet Encyclopedia of PhilosophyEHT — Event Horizon Telescope Collaboration (2019). First M87 Event Horizon Telescope ResultsPROIETTI et al (2019). Experimental rejection of observer-independence in the quantum worldMCCULLOTH e PITTS (1943). A logical calculus of the ideas immanent in nervous activityGE et al (2018). Big Data for Internet of Things: A Survey; SBPNL (2019). História da PNLREIMAN (1997). The application of positron emission tomography to the study of normal and pathologic emotionsTHIBAUTet al (2014). PET Imaging in Altered States of Consciousness: Coma, Sleep, and Hypnosis;

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